domingo, 13 de março de 2011

Domingo



Este sempre é um dia estranho, preguiçoso. Quando trabalhava e estudava este representava o fim da moleza e, portanto diferente do sábado em que eu estava disposta a arrumar a casa, sair, passear, badalar... Domingo era dia de coisas mais relaxantes, cozinhar, ler um bom livro, ver um filme, conversar com os amigos – claro que em geral fazia duas ou mais dessas coisas ao mesmo tempo, pois uma de cada vez sempre me pareceu perda de tempo, excetuando a leitura é claro. De toda forma domingo sempre foi melancólico.
Hoje meus domingos são diferentes, não por conta deles em si e sim por segunda-feira não mais representar a volta de uma inexorável rotina. No entanto os reflexos desse tempo se fazem sentir ainda e domingo continua melancólico.
Esses últimos dias vivi intermináveis domingos. Chove todos os dias e como moro em uma região de morros vejo cotidianamente lama, pedras e terra descer pelas encostas e ruas. A cidade parece ruir.
Ao que tudo indica estou em uma região segura e o ângulo do morro em que me encontro favorece em muito essa idéia. Ainda assim é difícil ver diariamente casas ameaçadas, ruas fechadas, amigos em apuros, pois o abastecimento de água não ocorre em toda a região.
Por ironia a cidade da minha infância, distante mais de mil quilômetros daqui vive situação semelhante. Dá uma sensação de que não há escapatória e que segurança e conforto são palavras vazias.
Pode parecer estranho, pois como já afirmei que estou em segurança e aqui não há qualquer problema para abastecimento de água, energia, comida... O que ocorre é que ver, saber, que outros seres humanos, e mais seres humanos ao alcance da visão perderam o pouquinho de segurança e conforto que tinham aperta o coração.
Mesmo sabendo que em horas assim não há nação mais solidária que a nossa: água, comida e cobertores logo chegarão aos necessitados, quando a chuva cessar e os dias se sucederem e a solidariedade for se derretendo conforme o sol seca a terra a maior questão fica:
Em que pedaço de chão essas pessoas reconstruirão sua vida? Continuarão penduradas em casas construídas só com o conhecimento práticos em lugares em que nem ótimos engenheiros fariam cálculos suficientes para segurança? Nada contra o conhecimento prático, mas a experiência diz que numa casa a segurança está na união do conhecimento acadêmico ao prático. No próximo ano veremos mais enchentes e deslizamentos? Acredito que sim.
Isso faz com que a melancolia domingueira pareça uma doce comemoração perto da das pedras e lama que cobrem as ruas da cidade onde moro e a cidade onde cresci.

Joviais, balzaquianas e preocupadas saudações

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